Para Pensar por Arthur Virmond de Lacerda Neto

I- Invocação.
Por que calar nossos amores ?,
indagava Plínio. Recebam eles louvores !
Humanos e naturais, canto o meu,
como o dos deuses decantou Orfeu:
Jacinto amado por nu Apolo
e morto por ciumento Zéfiro, com dolo.
Também narrou o causo de Ganimedes, raptado
por Júpiter, de águia disfarçado.
Já Ovídio memorou a predileção, por Ciparisso,
de Febo que, como lutuoso serviço,
transformou-o em cipreste
sob céu estrelado, negro celeste.
Na tumba de Iolau juras de amor
faziam pares de homens, sem desprimor.
Assim o comunica Plutarco:
seja, da fidelidade, belo exemplo e marco.
Com estimulado plectro, por gregas e romanas
figuras animados, falemos das afeições humanas
e nossos amores revelemos, com feições ufanas.

II- Um rapaz.
Alguém me cativou: foste tu, rapaz.
Eis porque te confessar me apraz:
és a delícia dos meus olhares
e o encanto dos meus vagares.
Atração, suscitas-me;
interesse, despertas-me;
doçura, inspiras-me.
Anseias por teres-me contigo
e seres-me mais do que amigo.
Idades diversas e afastadas
não contém óbice para pessoas encantadas.
Mancebo com maduro
combinam se lhes houver amor puro.
Rapaz sincero com senhor amoroso:
eis, também, fórmula de viver venturoso.
Com sinceridade e mútua vontade
também se faz felicidade.
Amor assim, houve-o na antigüidade,
com Antínoo e Adriano,
rapaz bitínio e imperador romano,
de que, afogado no rio Nilo, morreu o primeiro,
ao que o segundo pranteou-o com luto verdadeiro.
A seguir, o romano senado ao morto divinizou:
à condição sobre-humana o elevou.
Sirva-nos o exemplo dos antigos, do imperador e do senado:
respeite-se a condição e o amor de quem se tacha de veado.
Outros tempos, outros costumes, Cícero diria:
liberdade, então, havia; preconceito, inexistia.

III- Henrique.
Bem o quero: é-me ele o queridinho.
De Curitiba, viajei a Joinville, sítio quentinho
e lá o encontrei. Nome seu não é Martinho:
é Henrique. Vota-me carinhos,
meiguice que se exprime também por selinhos:
eis como, em popular, se chamam beijinhos.
Passe o plebeísmo, este apenas,
em meio a tantas palavras castiças e amenas.
Na Praça dos Suíços, recanto pinturesco,
formoso e sob ar fresco,
abraçou-me ele pelas costas; agarradinho
quedou-se em mim entrelaçado, de mim, juntinho.
Oh ! Eis cena típica de casalzinho.
Senhor maduro eu e ele novinho,
qualificou-me ele de seu namoradinho.
Moça disse-nos: – Acho uma beleza vocês dois !
Simpática jovem, bem haja, pois !
Era ambiente juvenil
e eu, nele, o único varão senhoril:
cinquentagenário em meio à gente moça e agradável,
com rapazes fanchonos de conversação deleitável.
Na praça passamos tarde desfrutável,
junto de casa antiga, museu e lago,
enquanto amor meu me fazia vário afago.
Eu lhe empalmava a mão dextra:
afeto induz ao toque, em que logo amante se adestra.
Despedimo-nos, rapazes, moças, ele e eu, com amplexos
espontâneos e sem timidez entre os sexos.
Fanchonos jovens, por costume, despedem-se com abraços.
Será porque entre eles são mais sinceros os laços?
Ou sentem-se à vontade entre iguais, entre si solidários,
em jeito de, implicitamente, correligionários ?
Identidade de situações, de percalços, até de perseguições,
suscita em quem as padece fraternidade nas relações.
Não é assim sempre nem com todos, porém há tais inclinações.
Ou será gente de acrescida simpatia e carinhosa?
Talvez um pouco de cada: é suposição nada aventurosa.
Em regra são simpáticos,
porém os há sorumbáticos;
se curitibanos, são piores;
se de alhures, bem melhores.

IV- Palavras e gestos.
Por palavras e gestos, revela-me Henrique a sua afeição
e digo-lhe eu, da minha: em metáfora, eis o coração.
De gestos, um é andarmos de mãos dadas.
Estariam elas, nisto, erradas ?
Oh, Eros ! Por certo estão certas !
Cupido eis que com flechas suas nos acertas !
É invulgar atração entre distintas gerações;
é humana a afeição com recíprocas interações.
De mãos entrelaçadas, duas moças tangenciamos:
de ambas, sorrisos levamos !
Duas velhotas com semblante sisudo miraram-me
e, por certo, no seu íntimo, estranharam-me.
Gente moça e aberta, amiga do amor e da liberdade.
Gente velha e careta, inimiga da livre afetividade,
formada na heteronormatividade,
conceito falso e, para muitos, inflição de crueldade.
Rara gente em nós reparava;
senhor e rapaz, amorosos, não os espantava.
Alguém haver-nos-á suposto pai e filho:
acertaria se pensasse: -Bravo ! Para amor, não haja empecilho !
Aos (raros) que nos deitaram olhares de surpresa,
reagi com saudações que lhes lancei com afoiteza.
Pouco se me dá a de outrem opinião:
o que me é privativo aos mais interessa ? Não !
Leitor, pouco se te dê o juízo alheio
que adentra, de permeio,
no que tu e só tu és juiz soberano.
Sê correto, não prejudica: obra assim ao longo do ano.
Tempos novos vivemos, tempos de liberdade gozamos:
ocupe-se cada um da vida sua e felizes todos sejamos,
ele ao modo dele, eu ao modo meu, tu ao modo teu,
junto de quem se escolheu.
Palavras de amor diz-me ele e não são poucochinho;
te amo, amo-te, amo-o dizemo-nos e nenhum está sozinho.
Diz-mas com beleza e engenho: é-me carinhoso
e de locução, escorreito e airoso.
Quando o inspira Himeros, é fogoso !
-Nenhum outro é você, declarou-me, com sabedoria.
Sou-lhe único: em dito lacônico e sem alegoria
exprimiu, do amor, a verdade: eleição de um, dentre todos.
Amor sincero é escolha sem engodos.
Confessou-me vezes repetidas
o seu sentir, com palavras não fementidas.
Ditos de afeição e meiguice
comunicou-mos diversos, todos sem pieguice,
sempre oportunos e interessantes:
exprimem entrega e são-me cativantes.
Alguns não lhos sei reciprocar,
porém confesso: desejo com o amor seu ficar.
Também me exprimiu:
-Mas Zeus, grande deus, cuida de mim,
teu querubim que te quer bem, sim.
Em versos rimados compôs alegoria
com a grega mitologia,
de mistura com a cristã teologia.
Responder-lhe-ia: – De ti cuido, mancebo,
como por Roma zelou Averrunco Febo.[1]
Se da nossa relação me demitisse,
exortou-me a que como amigo seu persistisse.
-Certamente ! exclamei-lhe à puridade.
Votar-lhe-ia ainda especial e dileta amizade.
Assim há de ser namoro que termina,
se finda bem: assim o penso, como doutrina.
Pediu-me um presente, em pedido que a sério levei.
Era partida que me pregou: desmentido dele escutei.
De nada precisava, me acrescentou.
Presente de todos os dias, é-lhe o amor que lhe dou:
foi tirada com que se me confessou.
Assim é amor desinteressado,
sem mescla de benefício embuçado,
pureza que atestei e confirmei
em recusas dele, que experimentei.

V- Momentos.
Uma vez e mais, esquivamo-nos do do vulgo burburinho,
evitamos o humano buliçoso torvelinho:
preferimos aconchego a dois: para sabê-lo, escusa de ser adivinho.
Certo dia (jantavamos) ruborizei-me, à conta de tinto e seco vinho
que, capitoso, à cabeça me subiu, de mansinho.
Em mesa propínqua, comensal vizinho
fitou-nos quando ele, meigo, me abraçou
e melenas minhas, cinzas, desarranjou.
Se narrara em pergaminho,
perenizara a narrativa em escaninho
de excelso e raro pau, o pinho.
Não promova, porém, o namoro, firme ou ainda não,
o isolamento de amante e de amado, com exclusão
da amiga gente de um ou de outro: eis funesta subtração.
Que acolha um os amigos do outro: eis bela adição.
Ele divertiu-se ao ver uma coelha mais o coelhinho;
depois, ofereceu-me flor qual o lírio: sem espinho.
Não era jacinto nem rosmaninho,
era alva, não rasteira nem de cor azul-marinho.
Trouxe-a como singela lembrancinha.
Recordações amáveis, dele, já as tinha:
desenhos nudistas e outra flor,
verde de talo e vermelha de cor,
que, ressecada, guardei em caderno de diário,
em que anoto intimidades de motivo vário.
Antanho diarista profuso, de texto abundante,
agora escasseio, porém lá anotei sobre ele, perseverante.
Flor como recordação e narração de vera história
são formas de conservar memória:
fatos que, se com o volver do tempo andarem deslembrados,
com leitura de manuscrito serão recordados.
Eis o benefício de anotar:
o encanto de, no futuro, mavioso passado memorar.
Não procurava ele (disse-me) nem eu, a sua metade:
sentimo-nos completos (disse-lhe): é verdade.
Sentir-se incompleto é (digo-me), de si, decréscimo.
Sentir-se completo com amor (digo-vos), é completo com acréscimo.
Falei-lhe de avós: alemães os tenho, e um biscainho;
eis costado nada comezinho.
Alegá-lo e descrevê-lo é inocente; será talvez daninho,
se induzir a bazófia, a vaidade e a empáfia: gabolice é desalinho.
Defeitos por evitar: arrogância e egoísmo, formas de ser mesquinho.
Virtudes que cultivar: bondade e humildade, energia e esforço;
reunidas, representam de homem excelso, escorço.
Horas em companhia mútua, fugazes, são-nos intensas:
sendo exíguas, parecem-nos imensas.
Dois dias e meio são, horas, sessenta,
porém sentimo-los como semanas: o tempo aumenta
com deleitosa presença do amado:
tempo escasso e bem aproveitado.
Quando nos conhecemos, de pronto combinamos.
Muito parolamos e mutuamente nos observamos.
Sentimentos reiteramos e propensão confirmamos.
No futuro, exclamaremos: – O resultado foi que nos casamos !
Boda nossa seria ao pé de vetusto pelourinho.
Porém já não os há ! Será, então, com fundo carinho.

[1] Febo Averrunco ou Febo que afasta o mal. Febo, nome romano do grego Apolo.

 

Leia Mais: Henrique. | Revista Lado A http://revistaladoa.com.br/2017/07/para-pensar/henrique#ixzz4pJ5V1IRK
Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução parcial ou total do conteúdo sem autorização. Lado A Comunicação 2006-2014.
Follow us: @revista_lado_a on Twitter | revistaladoa on Facebook