Meninos de Ferro por Bruno de Abreu Rangel (B.A.R.)

Se em algum momento você já foi demitido de um emprego; se alguém resolveu fazer as malas e abandonar uma história que, supostamente, seria para sempre; ou, talvez pessoas do seu convívio se afastaram por divergência de opiniões, familiares lhes deram as costas porque você decidiu ser você mesmo… bem-vindo ao clube dos rejeitados. Fique à vontade. Aceita um café?

Sem açúcar, claro. Porque a dieta deve ser prioridade. O importante é estar em forma, com os gominhos riscando a barriga, vai que o príncipe encantado aparece. E aquela fotinha do Instagram que vai render trocentas curtidas por segundo, o respeito que vamos ter quando tirarmos a camisa na balada, os olhares de desejo que vamos despertar do Oriente ao Ocidente, os corações que vamos partir quando decidirmos pularmos para outra do nada? Quanto poder, não é mesmo? Não, pura idiotice! Por que coisas tão insignificantes nos tiram a tranquilidade? Por que essa obsessão em ser aceito?

Abaixo narro a história de cinco rapazes que sofreram qualquer tipo de rejeição e “encontraram” a paz de espírito na academia. Os nomes e locais foram alterados visando proteger a identidade das pessoas. Qualquer semelhança é fofoca aleatória.

Porto Alegre: Caio fazia parte desses casais que postam fotos de 15 em 15 minutos, aquela forçação de barra do “vejam como somos felizes”. Num belo horrível dia, ele encasquetou de fuçar no celular do namorado e descobriu que o rapaz andava ciscando por aí. Quando foi tirar satisfação o cara já estava enrolado com outro que tinha 200 mil seguidores a mais do que ele. Resultado: Caio está solteiro desde então e é um dos novos digital influencers das redes sociais, tem milhões de seguidores, mas ainda não encontrou um rumo na vida para seguir. Passa a metade do dia pensando na sua nova postagem e outra metade malhando, porque vamos combinar, nada dá mais likes do que mostrar o bumbum sarado “despretensiosamente” no casamento da irmã. Nesse fantástico mundo das subcelebridades, mesmo tendo um rosto lindo, ele acredita que é modelo e que ter o maior número de seguidores trará o seu amor de volta.

Rio de Janeiro: Gabriel era chamado de anjo pela família, mas fora de casa era reconhecido como mosquito em virtude do corpo quase esquelético. O garoto anjo comia que nem um capeta e não engordava por nada. Passou a infância e a adolescência sendo motivo de deboche e ponto de referência: ‘bem ali, atrás daquele magrinho’. E quando não era uma situação constrangedora ele se sentia como uma parede, ninguém o percebia. Sua vida amorosa foi uma coleção de “Nãos”; evitava aparecer na praia e passava a maior parte do dia trancado em casa, na internet. Essa história virou passado quando um primo o carregou para a academia e apresentou umas paradinhas no sigilo. Quando Gabriel se deu por conta PAH! O menino anjo virou um Deus — grego. O deslumbre pode ser algo traiçoeiro. A fome de ser aceito o tornou num compulsivo sexual e, pra quem tem corpão na terra do samba, esse tipo de comportamento é um prato cheio. Hoje, o esquema é cada dia uma novidade, uma vida desgovernada em aplicativos, um orgasmo engatado no “a gente se esbarra” e uma autoestima tão frágil como um jarro de cristal, pois apesar de ter entrado para a lista de desejos de meio mundo, sua cabeça ainda é daquele garotinho rejeitado.

Recife: Jorge foi criado num desses prédios de luxo que contornam a praia da Boa Viagem, mas por ser filho de políticos, teve o privilégio de curtir outros mares bem longe dos tubarões: Miami, Bora Bora, Havaí, Punta Cana, Ipanema. Está sempre rodeado de pessoas “queridas”, passando o cartão sem limites bancando prazeres, amizades e momentos inesquecíveis. Mas só o dinheiro não foi o suficiente. Nem apelando para todos os recursos da engenharia estética conseguiu dar uma aliviada no visual. Sem muita opção, acabou se entregando aos anabolizantes acreditando que um corpo perfeito lhe traria um pouco de amor-próprio e os romances que nunca foram correspondidos.

São Paulo: Felipe foi alvo daquelas histórias trágicas dramáticas dos anos 90, em que ser gay era mil vezes pior do que ser um bandido. E ele, em particular, sofreu bullying dentro da própria casa. Um dos episódios que consegue contar com os olhos úmidos foi o momento em que recebeu um presente no dia do seu aniversário de 18 anos e ao abrir o pai complementou às gargalhadas: ‘Uma boneca para uma boneca, agora que você completou a maioridade saia dessa casa! ’ Hoje, ele vai à academia de segunda a segunda, tem um corpo incrível, é bastante viril e fica atento para não ter nenhum deslize. Ninguém pode saber que ele é gay (o famoso fora do meio). Apesar de ter perdoado os pais, as cicatrizes ficaram: não acredita na instituição família, não consegue manter nenhum relacionamento por mais de dois meses, tem crises existenciais alarmantes e caiu na armadilha das drogas.

Manaus: Marcelo teve uma infância com recursos limitados, vivia numa casa de pau a pique com mais seis irmãos e sempre quis ir à Disney, e quem não quer? Consigo imaginar a Xuxa soltando essa pérola. A questão é que a transição entre a adolescência e a fase adulta trouxe alguns transtornos já que decidira bater a perna e assumir que gostava de homens. Ser gay e pobre não é fácil, o preconceito dobra, no entanto, nem tudo estava perdido já que ele era um dos beneficiados pela genética: rosto no lugar, corpo desenhado e uma pele naturalmente bronzeada. Quando começou a ter acesso aos aplicativos passou a se envolver com os mais afortunados da Ponta Negra e viu que existia um mundo ao qual ele não fazia parte e ninguém o deixara entrar. Começou a semear um sentimento incômodo em possuir o que os outros têm, mais conhecido como inveja. E desejou com todas as forças participar das melhores festas, malhar na melhor academia, vestir roupas de grifes e comer em restaurantes requintados. Não encontrou outra solução senão vender o que tinha de mais valioso: o próprio corpo.

Não há pré-julgamentos, não há mocinhos e nem vilões. Somos todos vítimas e a rejeição pode bater à porta de qualquer um. Nossa sociedade está cada vez mais solidificada na cultura do prazer e do entretenimento: tudo é corpo, corpo, corpo. Na primeira rejeição, a gente foge do problema e corre para a academia com o intuito de fortalecer o físico quando, na verdade, deveríamos fortalecer a alma, cuidar da parte de dentro, reagir com serenidade quando somos convidados a nos retirar, acalmar a dor emocional, reduzir os níveis de raiva e insegurança, proteger a autoestima e estabilizar essa necessidade em ser aceito. Há amores em que não rolam mais química, há incompatibilidade de estilos de vida, pessoas que querem algumas coisas enquanto queremos outras, situações que não se sincronizam – e ninguém tem culpa – o mundo continua girando.

Bruno de Abreu Rangel
brunorangelbrazil@hotmail.com
Blog: http://wwwbarbrazil.blogspot.com/

 

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